quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Improptu (2) LiQüiD


E ele olhou para cima, e não viu nada senão o azul do céu.
A água acolhia-o, e ele sentia-se tal como antes do seu primeiro choro neste mundo. Ela aceitava-o como seu filho.
Os penhascos desapareciam por cima do lençol desfocado de azul marinho. Sentia a água a entrar-lhe nos pulmões, salgada. Para logo sentir que fazia parte dela...
Sentia os limos e as algas tocarem-lhe nas pernas, envolvendo-o lentamente e chamando-o para um abraço envolvente e escorregadio.

A sua alma não conseguia perceber por que lutava o seu corpo, desesperadamente, por se manter à superfície, esbracejando furiosamente em direcção ao disco brilhante no céu.
E olhou, uma vez mais, para cima.
Pássaros. Gaivotas, talvez. Uma delas mergulhou em direcção a si e penetrou na água, mesmo ao seu lado. Ele olhou para ela. Numa fracção de segundo, julgou vê-la olhar para ele, igualmente, enquanto agarrava com o bico o peixe que buscava. Depois, deixou-o novamente consigo mesmo e voltou a transformar-se num ponto negro desfocado acima da linha de água.

Ao seu corpo começavam a faltar as forças para lutar. A Paz estava próxima...

Lá em cima, asas batiam silenciosamente. Não eram pássaros. Agora eram, tão somente, pontos que se mexiam e desapareciam, tranquilizadores, através do líquido celeste derradeiro...
Cardumes de peixes multicolores rodeavam-no, acompanhando-o na sua viagem, dançando ao som abandonado do seu silêncio.

"Reflexos de prata... Os peixes são Anjos..."
Foi o seu último pensamento.

Lá em cima, agora, só a água...

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