O ESQUECIDO (1)
Agora que caminho no meio deste campo de batalha,
Por entre os corpos de valentes guerreiros que jazem no chão estendidos,
Que por algo combateram e por isso morreram,
Penso "Quem se lembrará destes esquecidos?"
Naquela madrugada, preparavam as suas armaduras
E desfraldavam as suas bandeiras
Lembravam histórias de outros tempos
Recordações ardiam com as fogueiras
Encontros derradeiros de jovens com as suas amadas
Beijos de amor trocados e promessas juradas...
Quantos deles voltarão...?
O soldado solitário que, na sua marcha acompanhado,
Se recorda do que sentiu quando soube que fôra abandonado
"O que sinto e o que sou,
Nem eu conheço o meu destino,
Não sei para onde vou,
Só sei que não quero ser esquecido..."
As lágrimas do valente lavram a sua solidão
"Combaterei pelo sangue que derramei do coração"
A aurora aproxima-se, o romper de um dia que nasceu para a dôr
Jovens donzelas pedem aos seus amados, num olhar
"Amo-te, regressa por favor..."
Nesta hora ninguém sabe quem será o esquecido...
No meio da névoa que acompanha a marcha
O soldado pensa para si "Atrever-me-ei a viver?"
E o ancião na berma da estrada pergunta
"Não sabes que te vão esquecer?"
Jovens orgulhosos por combater, e ansiosos por conhecer
A honra da batalha, ou a glória de morrer...
Ao longe o inimigo, também ele na sua armadura
Orgulhoso e altivo, convencido que não será esquecido...
Finalmente o choque de corpos que ninguém desejava conhecer
Olhares de tristeza de quem, afinal, não queria morrer
A aurora conhece os moribundos, no ar a sua agonia
Ao longe, uma criança, assistindo ao nascer sangrento do dia...
Valentes guerreiros, que agora vejo caídos
Vítimas do Destino, eles serão os esquecidos
O Sol vai alto na manhã, a batalha terminou
Caído no chão, aquele que morreu e o chorou.
Ao longe, o olhar do ancião
"Haveis morrido, lutadores destemidos,
Triste sina, porque foi em vão...
Afinal, só eu me recordarei dos esquecidos..."
Como será que o consigo ver
Se afinal me descubro no chão?
No entanto estou em pé...
Quem será o Ancião?
Por tudo o que lutei...
Afinal onde estou?
Tropeço nestes corpos,
Não me lembro de quem eu sou...
Serei eu O Esquecido...?
O INDESEJADO (2)
No dia em que nasceu, a alegria reinava no ar
Esta criança, que chorava, seria para cuidar e amar
Mas a criança foi crescendo
Com um brilho ignorado no olhar
E aos céus abertos à sua revolta
Ajoelhava-se para chorar
O amor e alegria desapareceram do seu lar
A sua revolta crescia por dentro
Mas não era ainda altura para a libertar...
O jovem submeteu-se às regras da Vida
Obedecendo-lhe porque devia
Mas os trovões nas montanhas, ao longe,
Gritavam a sua rebeldia...
Com um olhar distante, ele sabia
Que as viria a conhecer um dia...
E, um dia, quando a casa tornava
Não encontrou o que sempre tinha procurado
Foi-lhe dito que já não existia
Descobrira que fôra abandonado
E, num grito aos céus, irado
Fez um voto para todo o sempre
"Em tudo o que fizer, em tudo o que eu viver
Nunca, mas nunca, mostrarei o que sentir"
E então partiu... assim o decidiu.
O jovem fez-se um homem amargo
Que em muitas batalhas combateu
Carregava feridas e cicatrizes,
Mas só lembrava quem morreu...
Um dia, encontrou o olhar mais doce
Que no seu mundo amargo poderia existir
Desde há muito que este rosto cansado
Não sabia o que era sorrir...
Cercado por doçura, rodeado por ternura
Sentiu-se desejado, esqueceu-se da amargura...
O tempo passou e o brilho no seu olhar voltou
Mas, lembrando-se do voto que tinha jurado cumprir,
Um dia, com sofrimento no coração, resolveu novamente partir...
Histórias dos seus feitos recordavam-no por vencer todos sem temer
Mas também se soube de um combate derradeiro
Disseram que o viram desaparecer...
Chegou o dia em que o homem, já velho,
Retornando às suas memórias
Lembrava-se de um Amor
Juntamente com as suas vitórias
"Em tudo o que fiz, em tudo o que vivi,
Nunca mostrei o que senti.
Foi a vida que decidi...
Descubro agora que a perdi."
Regressando, então, ao que tinha abandonado,
De lágrimas nos olhos e coração apertado,
Descobriu aquele olhar, ainda mais doce do que recordava
Pois, pelo seu Amor, ainda era desejado...
O DESTERRADO (3)
Um Cavaleiro Negro, nesta noite escura,
Continua a cavalgar...
Não sabe por quê, nem sabe o que procura.
A chuva que cai molha-o sem piedade
O rosto, escondido pela armadura,
Apenas chora as lágrimas da sua verdade.
Desde que se lembra que sempre lutou
Mas já não se consegue lembrar porque começou
Tudo o que lhe quiseram impôr
Combateu-o sem temor
Pois sempre soube no seu coração
Que tudo o que vem de dentro tem mais valor
Quiseram-no privar dos seus sentimentos
Mas teve a coragem de se lhes opôr
Porque privarem-no do que sentia
Era privarem-no do que ele vivia
Quiseram-no marcar, mas ele não o deixou
Porque ser o que não era foi sempre contra o que ele lutou
A partir daquele dia
Quando lhe quiseram roubar a vontade
E decidiu então honrar a sua liberdade
De armadura negra e espada empunhada
Cavalgava pela noite, gritava para o Nada
Debaixo de um céu escuro, de punhos cerrados
Sentia a chuva nos seus olhos marcados
De lágrimas de fúria, da guerra que não podia vencer
Da certeza absoluta das batalhas que ainda iria combater
Atreveu-se a viver sem saber o que esperar
Algo naquele horizonte escuro fê-lo continuar a lutar
"Afinal sempre fui marcado.
Sou aquele que não perdoam por se atrever a viver
Se de tal sou acusado, não têm por que temer
Porque me declaro culpado
E o meu coração não quer ser perdoado!"
Este é o Cavaleiro Negro renegado
Que ouviu a sua sentença
"Se não te arrependes do que és acusado,
Serás, então, para todo o sempre desterrado!"
E o Cavaleiro assim o fez
Desterrado da sua terra
Olhou para trás uma última vez
"Não importa a distância, sempre tão perto...
Nada mais me interessa, nada é mais certo!
Talvez soubesse que seria assim....
Afinal, este é o meu caminho desde que o escolhi.
Não me interessa o que possam pensar,
Não me interessa o que possam dizer,
Pois nada é mais sincero
Do que tudo o que eu possa sentir!"
E, assim, o Cavaleiro Negro continua a cavalgar nesta noite escura
Mesmo sabendo por quê, não sabe ainda o que procura...
A única certeza desta noite é a chuva que cai
E dilui as lágrimas que molham o rosto escondido pela armadura...

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